sábado, 1 de junho de 2019

Cyro de Moraes Campos


Uma Mente para Além de seu Tempo


"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!"

(Mario Quintana)

Acervo Biográfico do Autor
Cedido pela Família
Cyro de Moraes Campos Nasceu em Juiz de Fora, MG em 31/08/1898. Era filho de Antenor Pinto de Campos, um renomado fotógrafo e juiz de paz local, e Arnalda Moares Campos, uma mulher religiosa católica e professora de piano.

Atendendo ao desejo de seu avô que o aspirava como sacerdote, ingressou no seminário aos 11 anos. Estudou no renomado Colégio de Caraças – MG, considerada na época, uma das escolas mais prestigiada do país. Foi nesta escola que Cyro concluiu o ensino fundamental. 

Aos 14 anos ficou órfão de seu pai, foi então levado por um tio para trabalhar na cidade do Rio de Janeiro. Sua mãe, ficou em Juiz de Fora com os cinco filhos. Duas de suas irmãs se tornaram freiras. 

Cyro concluiu seus estudos como autodidata. Desde cedo apresentou interesse pelos livros de história e estudos da natureza e religiosidade humana. Aprofundou-se em temas de antropologia, naturalismo, gramática e filologia. Dominava oito idiomas, dentre estes: hebraico, aramaico, grego e latim. Foi tradutor de francês, alemão e inglês para o português e professor de latim.

Deixou diversas obras importantes. Nos estudos, fez a distinção sobre as origens e natureza das religiões: cristã e judaica. Dizia que gostava de escrever para os jovens pois "não estavam contaminados pelo pensamento religioso" - vicio, que, segundo ele, levava ao fanatismo.

Era um homem "espirituoso", gostava de contar histórias enquanto descrevia sua profundidade em diferentes níveis de filosofia e contingencias do dia-a-dia.  Seu amigo pessoal e genro, Orlando Orestes Patrial, em contato com Cyro, certa vez revelou-lhe seus anseios pelo saber, e Cyro retrucou:  

"Isso que você faz (aprender história) é muito bom, pois quem consegue entender a história, conhece a natureza humana; e quem conhece a natureza humana, domina a sua vida!". 

Não muito tempo depois, Orlando além de grande amigo, tornou-se seu genro.

Podemos dizer que um marco inicial de sua jornada como pesquisador e historiador incansável, se deu na sua infância. Durante uma reunião de um grupo de senhoras católicas, em sua casa que discutiam com sua mãe assuntos religiosos, o pequeno Cyro interpelou uma senhora sobre aquelas questões, que reagiu: "Como pode um menino deste tamanho questionando este assunto?"

Cyro contava essa história com risos, pontuando que foi neste dia que seu interesse pela compreensão do que viria a ser a religião, foi despertado: "Eu não sei, mas eu ainda vou saber" - afirmava com convicção.

Sempre estudou, aos 86 anos já doente, mas lúcido, disse: "Se eu viver mais um pouco eu quero fazer uma pesquisa sobre répteis nativos de algumas ilhas do pacífico sul. Eu acredito que estes répteis tem a mesma origem do ser humano."

Cyro faleceu em Curitiba-PR no dia 07/01/1984, em função de um quadro agravante de bronquite asmática, dado ao enfisema pulmonar. Não apresentava medo da morte. “O indivíduo tem que morrer após sua contribuição para o aperfeiçoamento da raça. A imortalidade é apenas uma ilusão vestida com os trapos coloridos do egoísmo” - escreveu.

Na vida profissional foi bancário, banqueiro, fazendeiro de café, um homem simples de inteligência rara. 

Aos 14 anos ingressou no Banco Mercantil do Rio de Janeiro, que tinha entre outros clientes, Santos Dumont, o qual admirava e fazia questão de atendê-lo sempre. 

Vida Profissional


Na vida profissional, ainda muito jovem, foi aprovado no concurso do Banco do Brasil, e nomeado para agência do Banco em Campinas. Uma agência na época, tradicional nos negócios com café, então maior riqueza brasileira. Essa experiência o levou a ser convidado para trabalhar na Comissária de Café Moura, Andrade e Cia, em Santos.

Na crise de 29, já conhecido e experiente na área, foi nomeado Liquidante Judicial pelo Juiz da Comarca de Santos, que na época, era o Centro Mundial do Comércio e Exportação de Café e sede da Bolsa de Valores de Café. Findo esse trabalho, já nos anos 30, entrou no Banco Noroeste de SP, assumindo a gerencia em Marília – SP.

Sua passagem pelo banco Noroeste em Marília marcou época pelo seu relacionamento e trabalho, pois Marília era uma cidade florescente em franco desenvolvimento (café, algodão, etc.). O que lhe valeu o convite para assumir a gerencia do Banco Português, em Santos, praça que conhecia e era conhecido. Tratava- se de um grande Banco na época.

Já no final dos anos 30, a convite, deixando para trás uma situação privilegiada, partiu para um novo desafio, fundar um banco, transformando a Casa Bancaria Almeida e Cia, de Marília, no Banco Brasileiro de Descontos SA- Bradesco. Uma vez constituído o novo banco, tornaram-se sócios e formaram a diretoria os Srs: José Carlos Negreiros(presidente), Cyro de Moraes Campos (vice-presidente), José Alfredo de Almeida e José Carlos Jr. (ambos diretores). 

Os dois últimos eram oriundos da Casa Bancaria. A matriz foi transferida para São Paulo (Alvares Penteado). Novas agencias foram abertas no interior, quando ocorreu a morte súbita de Negreiros, Cyro então assumiu a presidência do banco, sugerindo como novo sócio Amador Aguiar. Neste banco permaneceu até meados dos anos 40. Por divergência com um dos diretores do banco, resolveu sair. 

Seus Estudos  


Dedicou-se a partir de então à sua Fazenda de Café no Norte do Paraná, e pode fazer o que mais gostava: estudar, pesquisar e escrever. Deixou diversas obras importantes, se distinguiu nos estudos sobre as origens e natureza das religiões cristã e judaica.

Segundo Patrial, Cyro de Moraes Campos era um homem sábio, simples, humilde, que vive a vida como um cidadão comum.

Sua inspiração esteve aflorada: elaborou obras grandiosas, frutos de pesquisas concomitantes e exaustivas. Em algumas destas obras, aprofundou temas recorrentes sobre naturalismo, antropologia religiosa, ciência da religião, darwinismo, , e ainda, publicou um trabalho inédito sobre as possíveis origens e natureza das religiões cristã e judaica. Cyro deixou um legado de caráter e sabedoria a partir de suas publicações.


Família


Um homem intenso, adiantado para sua época, explorador da história e amante do saber. Mesmo assim, jamais abandou o lar. Formou sua família com muito zelo e amor.

Cyro foi casado duas vezes.  De seu primeiro matrimonio, com a sra. Áurea, nasceu três filhas: Raquel, Margarida e Paula Marília. Da sua segunda união, com a sra. Egle Dorothea, frutificou-lhes:  Flávio; Cyro Jr; Mª Lúcia; Valéria; Rosely e Sérgio.


 Principais Publicações


 1) Jesus O Filho do Povo (1946)


Nesta primeira obra, Cyro traz uma narrativa inédita sobre o Jesus Histórico e encarnado. Aqui, ele reúne quatro contos descrevendo o ambiente social e histórico de Jesus em seu apostolado na Galiléia.

Desvela o véu do misticismo e traça o aspecto antropológico do nazareno. O livro é belo e atraente, e apresenta recursos que na época careciam de confirmações, porém hoje, podem ser ratificados pela antropologia religiosa e pela teologia. 

Raríssimo - o exemplar para amostra em nosso site, somente foi possível a partir do exemplar de sua biblioteca, em Curitiba, cedido gentilmente pela família.      


2) Civilização Cristã (1949) 

Publicado pela antiga Editora Brasiliense - São Paulo, este livro foi considerado uma obra prima, apesar da polemica criada na época, por refutar muitos dogmas da religião cristã. Nele, Cyro traça uma antropologia histórica; cosmogonia ariana e suas influencias posteriores nas religiões ocidentais e no oriente próximo. 

Trecho Livro: Civilização Cristã, 1949.
                                                                                       
Como um tratado gramatical e filológico, este livro descreve as linguagens e influencias arianas nas civilizações antigas.
   
3) Histórias do Judaísmo Antigo (1961)

Publicada pela Editora Autores Reunidos Ltda. Esta obra foi iniciada em 1953 e concluída em 1959. Foram seis anos de meditação e persistência entre números e cifras, fuga dos imperativos das investigações filosóficas para que fosse concluído. 

Resultado de uma pesquisa autodidata, Cyro aprofundou-se numa extensa bibliografia de difícil acesso. Contudo, a obra é audaciosa e descreve de forma original e científica a história dos judeus da Palestina, desde sua mais remota origem, nos séculos XIV ou XV a.C.; desde o pacto de Abrão.  

Aqui, Cyro revela o panorama, a existência e o desenvolvimento dos judeus como grupo étnico-social. Esta obra está para além de uma simples exegese de textos religiosos.
 Acervo Próprio


Ela revela ainda aspectos da vida real de trabalho, das lutas, dos sacrifícios deste grupo agropastoril e as formulações que evoluíram para suas práticas religiosas politeístas à contextualização monolátrica¹. 


Cyro de Moraes Campos em sua pretensão histórica contribui para a compreensão de que “coisa nenhuma devemos, senão males, a quaisquer organismos religiosos, cujo poder supersticioso sempre tendeu para a deformação e o vício da natureza” (nota do editor).





4) A Verdadeira História de Jesus (1968)

Acervo Próprio
Em sua obra anterior, “Histórias do Judaísmo Antigo”, Cyro apresentou documentos e argumentos exaustivos para sustentar sua reorganização histórica judaico-cristã.

Nesta nova edição, ele trata de estudos de textos cristãos, principalmente do Novo Testamento, e sem qualquer hostilidade, revela de maneira direta, objetiva e realista, o surgimento e evolução do cristianismo original e as bases fundamentais para o seu estabelecimento como religião ocidental.

A partir desta tese inovadora, Cyro expôs os quadros político-partidários do judaísmo da era cristã e suas influências na formação deste quadro político-social.                                                        
5) Os Originais da Bíblia (1971)


   Acervo Próprio

Em tese, este livro pretende subtrair da História da palestina antiga, o adjetivo “sagrada”, demonstrando que a vida do povo israelita, instalado na região por volta do séc. V a.C., foi profana, tais como outros povos da região e não teve nenhuma conotação mágica ou especial.   

Cyro revela, que Neemias, sacerdote na época da reconstrução dos muros de Jerusalém, reescreveu a história de seu povo, como oriundo de uma teocracia, originária no Monte Sião, baseada em mitos e lendas da antiguidade remota.

Assim, Neemias, teria convertido as escrituras do Antigo Testamento, em referências históricas de uma região e povo, destacando dentre eles, Israel e Judá, como sementes de uma escolha divina.

O autor fará a recomposição dos antigos mitos, tais como: tribos agropastoris, arvore do conhecimento, invenção da chuva, diluvio punitivo, Caim e Abel, e outros; na tentativa do estabelecimento do novo Estado Judeu baseado na teocracia.
  
6) Pai Nosso que estais na Terra (1975)


Acervo Próprio
Neste ensaio, Cyro se preocupou em tratar assuntos relacionados às mudanças da modernidade e modo de vida social, à partir de um pano de fundo histórico e ontológico. Ele descreve os problemas históricos do judaísmo antigo e a natureza mesma de Jesus, comparando-os a um largo quadro de evolução humana, do mundo e da existência, criticando em alguns momentos a filosofia clássica e moderna, na falta de publicação de trabalhos de caráter histórico, que interligue as relações do passado e presente na descrição do que é a vida.

Cyro proclama que a “natureza há de ser o fim da religião, pois é em si mesma um processo religioso vivo, que permite o culto da beleza, da alegria, do prazer, da glória, do sol, em oposição ao feio, ao ruim, à dor, à treva, à morte encarada como um fim absoluto.” (p.29-31).

Esta obra é considerada positiva para alguns críticos, por se tratar de um ensaio baseado em historicidade e conhecimento da realidade científica.                                                                                                                           

7) O Nobre Romano de Nazaré (1975)

Acervo Próprio

“Este livro apresenta narrativas hauridas nas mesmas fontes e que no fundo só se distinguem pela maior ou menor habilidade do autor em dar força aos personagens que procura movimentar” – comenta o editor no prefácio de “O Nobre Romano de Nazaré”. 

As investigações realizadas nesta obra permitiram o autor fundamentar a historicidade de João – o Batista, no reinado de Herodes Antipas e Pilatos.

Descreve João como um revolucionário, e mestre de Jesus e seus discípulos. Segundo o autor, se reuniam numa espécie de “chaburah”  - (companheirismo), que mais tarde seria chamada de “eklèsia” pelos cristãos.

Ele interpreta propriamente os originais da Bíblia a respeito da prisão, morte e ressurreição de Jesus, e sua ressurreição e aparição quimérica. 

Esclarece que sem essa aparição, os fenômenos da religião cristã não seriam fundamentados. Todas essas descrições seguem em sete novelas magníficas, que vale a pena conferir.

8) Humanidade Fracasso da Natureza (1977)
Acervo Próprio

Cyro procura esclarecer neste trabalho que não era panteísta, teísta ou politeísta. Se autodeclara humanista e crer no homem, na individualização da inteligência do universo como mantenedora do governo do mundo.

Apesar das críticas propostas ante à sua tese, espera pelas mentes mais jovens a reciprocidade precisa para defender esta tese, dada a sua sinceridade e clareza de ideias, ainda que nada tradicionais ao âmbito teológico.

Ele descreve a psicologia do comportamento, ainda que não fosse um psicólogo graduado, com clareza ímpar, demonstra que muitas contingências regulam este comportamento humano através da evolução e modelagem social.

Considerado como breviário de filosofia moral, Cyro analisa os aspectos da dimensão política, ética e religiosa, que testemunham e revelam os caminhos e descaminhos pelo qual o mundo experimenta pela razão. 

 Obras não Publicadas


  
"Ternura" (1982), “Arco-Iris” (1983), “Poesias para Crianças” (1981) e “Carmela” (1983), não foram publicadas dado ao agravo de sua saúde na época.

Reconhecimento Literário 


Cyro passou parte de sua vida em uma relação dicotômica entre a economia e arte literária. Nos tempos vagos, se dedicava a leituras dos clássicos. Praticamente leu todos que estavam relacionados à religião (em especial ao cristianismo e judaísmo), a qual teve acesso em sua época. Por dominar vários idiomas, não foi dificultosa a pesquisa e acesso à literatura internacional.

Considerado como pelos seus melhores críticos como um “homem avesso a publicidades, afastado dos círculos literários, mas, não lhe faltava fôlego para escrever” – ainda que recluso em sua fazenda no Paraná, amparado pelo afago de seus familiares. 

Cyro era um homem de inteligência rara. Mestre com a humildade de um eterno discípulo de seus próprios estudos. E eu, humildemente, ainda que, jamais tenha estado com ele em vida, aprendi a amar e representar as suas obras na contemporaneidade.

Com uma paixão imensa, dada às relações de convivência e experiência junto ao seu sogro; Orlando Prestes Patrial, coautor desta breve biografia, e biógrafo oficial de Cyro, nos conta em entrevista:


“Cyro era leitor dos clássicos, leu todos. Gostava dos gregos, sua civilização, cultura, mitologia e pensadores antigos. Liberal e democrata por convicção. Leu todos os pensadores cristãos, ainda que não gostasse do cristianismo. Dizia em alguns casos, que ele soava como uma pessoa bastante interessante. Contudo, algumas pessoas não compreendiam sua tese, e de forma estúpida a rechaçava. Considerava-as com certo défice de inteligência. Ria muito com isso. Era muito espirituoso, próprio de pessoas especiais.“

           (Entrevista telefônica, 24 de abril de 2019)

É neste sentido que desejamos imortalizar a sua alma. Não compreendido em sua época, até porque, a maioria de seus trabalhos publicados em um país se auto afirmando após guerra; de tradição católica conservadora - tudo isso corroborou para uma censura quase que obrigatória.

Avançado demais para sua época, toda possível ameaça e desfavores, pareciam conotar mais que desafios, mais uma imensa motivação, que de forma incansável o levava a romper as correntes e amálgamas do cristianismo e seus dogmas. Suas escolhas lhe favoreceram ser quem se tornou.

Tudo parece começar nos tempos de Caraças, como um menino talvez até pretendido ao sacerdócio por alguns familiares, dado ao prestígio do cargo no inicio do século XIX, em uma cidade do interior de minas e família tradicional.  

Prestava atenção nos assuntos das carolas, que certamente tratavam das conveniências transformadas em verdades incontestáveis pela igreja ao longo do tempo; e ainda tão moço, debruçava no pensamento crítico e apateísta². Sua curiosidade, pesquisa e interesse são admiráveis.

A insistente tentativa de fazê-lo reconhecido e devidamente valorizado pelo teor e riqueza de suas obras, não se iniciou neste breve relato. Até porque nosso espaço não comportaria toda a sua grandeza. Sua história pretendemos sim, um dia esmiuçar.

Mas foi na década de 1990, que seu fiel discípulo; Patrial; iniciou o processo de reconhecimento e imortalidade deste mito. Aproveitando o momento que Gilles Lapouge, um correspondente do Estado de São Paulo publicara uma matéria sob o título: “Teólogo alemão afirma que padre é ‘burocrata de D’us – revelado em um polêmico livro francês sobre o sacerdócio católico; Orlando prestou singelas homenagens ao seu sogro.

Fazendo gancho da matéria, Orlando remeteu à redação do prestigioso jornal uma carta de referência, retirando enfim, Cyro das sombras do anonimato:

Cedido Por Orlando Prestes Patrial

Em nota, a o jornal Folha de São Paulo redigiu suas considerações:


Nota da Folha de São Paulo em Consideração á Obra de Cyro
Cedido por Orlando P. Patrial

Cyro de Moraes Campos foi um mito em sua época. Mesmo na atualidade, sua obra insiste em eternizar-se. Simples, humilde, viveu que vida como um cidadão comum: com retidão e dignidade. 


Criou os filhos, fez patrimônio e riqueza, com primor e delicadeza, jamais desprezou as virtudes. Deixou um legado de caráter e sabedoria a partir de suas publicações, e discípulos que insistem em seu eterno alvorecer. Preferiu o anonimato, mas as letras o tornaram vivo e fecundo.     


"Toda religião dá nascimento entre a massa mecanizada dos profissionais, beatos e praticantes, cujo sentimento não transpõe o diálogo do catecismo, a fiéis em que a fé em deus ou em deuses sugere um desenvolvimento especial da natural propensão para o bem, inata no homem. Nenhuma, porém, foi tão pródiga, nesse sentido, como a judaico-cristã".                
                                    
                (História do Judaísmo Antigo, 1961, p.368)  


Conclusão        


A primeira experiência com as obras do Cyro, aconteceu em 2005, enquanto pesquisava a origem do povo hebreu e as elaborações linguísticas mesopotâmicas. Podemos até pensar em uma possível coincidência, pois fui insistentemente movida por uma intuição, a entrar numa pequena biblioteca municipal na cidade do Rio de Janeiro. Lá, tive acesso a um exemplar um tanto malconservado de “A História do Judaísmo Antigo”. Encantada com o arcabouço teórico e histórico, iniciei uma busca pela origem do autor.

Nesta época eu era presidente do Ministério Itinerante de Apoio às Pesquisas Eclesiásticas – MICAI, com isso, era crucial a compreensão antropológica do hebraísmo para uma tese proposta.

Depois de muito procurar pelo autor, descobrimos que este não se encontrava mais em corpo. Contudo, graças a tecnologia e redes sociais, pudemos contatar alguns familiares.

Nosso objetivo primário, é fazer o nome do grandioso Cyro de Moraes Campos, reconhecido na contemporaneidade, aos mais jovens, e ainda, divulgar suas pesquisas e riquezas literárias.

Esperamos assim, através deste sucinto artigo, imortalizar nosso estimado autor, como àquele que "retirou as vendas de meus olhos", e me trouxe para a luz de preciosas verdades.                                                    
                                                             
Christianne Viana³
                                                                                                       Outono de 2019
                                                           
                                                                


                                      
_____________________________________________________________________

¹ - Para o autor, o termo monoteísmo não fora adequadamente usado no contexto do povo hebreu no início de sua formação social. A Monolatria se distingue do Monoteísmo, que assegura a existência de apenas um deus, e também se distingue do Henoteísmo, que é um sistema religioso no qual o devoto adora apenas um deus, sem negar que os outros possam adorar diferentes deuses com a mesma validade: "O deus judaico equivalia, no princípio, ao dos seus vizinhos [...] o deus mais forte ia tomando prestígio e amortecendo o rival, impondo-se como maior ao que havia subjugado [...]" (História do Judaísmo Antigo, 1961, p.72,75).

²- De acordo com a Wikipédia, é uma contração das palavras apatia e teísmo/ateísmo, também conhecido como ateísmo apático ou ateísmo pragmático, e caracteriza-se pela total apatia ou indiferença em relação à existência de deus(es).

³ - Christianne Viana é teóloga libera, psicóloga, pesquisadora de religião e antropologia religiosa. Mestrando em filosofia da religião com tese em Heidegger; inspira-se no legado do sr. Cyro, no qual se refere respeitosamente como mito. Chris tem ascendência judaica. Sua avó materna ao refugiar-se no Brasil, abriu mão dessas crenças por motivo de retaliação. Ao se converter ao cristianismo, movimentou toda a família a este caminho. Como Cyro, Christianne nunca se conformou com as explicações e teologias tradicionais. Aos quatro anos iniciou seus estudos na Bíblia. Aos sete anos teve seu primeiro contato com a mística judaica: Cabalah, e ao longo de 20 anos pesquisou as religiões do oriente próximo. Dedica parte desses estudos ao misticismo medieval, religiões proto americanas e africanas de origem bantu e congolesas. Tem como hobby escrever, e faz desse espaço um lugar aberto ao pensamento e saber. 

#Você pode contactar Christianne pelo e-mail: chrisspas@gmail.com


Postagens em Destaque

Mircea Eliade - Um nome em Antropologia e História - Saga Eliade parte I

“Toda manifestação do sagrado  é importante; todo rito, mito,  crença ou figura divina.” Mircea Eliade Quero começar essa semana...

Demais Postagens